Economia
Renovação ferroviária atrai a RMC
Empresas da região de Campinas investem em novos negócios para atender à demanda atual do setor, que revê modelo
Marcelo de Oliveira
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA
marcelof@rac.com.br
Com o
sucateamento das linhas, locomotivas e vagões, a falta de investimentos dos
setores públicos e privados e a pesada concorrência do setor
automobilístico, a indústria ferroviária brasileira praticamente fechou suas
portas no início da década passada. Porém, com a privatização das malhas há
cinco anos e depois de um longo processo de recuperação das finanças e
reestruturação dos negócios, o setor ferroviário está renascendo no País. A
euforia pelo ressurgimento do setor também está contagiando as empresas da
região de Campinas. Sem condições de fabricar locomotivas para atender à demanda
do mercado a curto prazo, indústrias da região adotaram um modelo de negócios
ainda incipiente no Brasil. Trata-se da importação de máquinas usadas dos
Estados Unidos, que são reformadas e modernizadas e, depois, entregues às redes
ferroviárias, com custos 70% inferiores a uma locomotiva nova, que chega a
custar US$ 2 milhões e levaria até 14 meses para sair da linha de
produção.
A EIF Engenharia, sediada em Campinas, acaba de fechar um
grande contrato neste novo modelo de negócios com a Brasil Ferrovias, também com
sede operacional em Campinas. A empresa, que tem como diretor de operações João
Tadeu Gemma, um ex-executivo da Gevisa, iniciou neste mês a vinda de 25
locomotivas elétricas dos EUA, que devem chegar em Santos no início de dezembro.
As máquinas, modelos C30-7 e C32-8 serão entregues em março de 2006 e vão ser
utilizadas pela Ferronorte. A IEF também já tem uma carta de intenção do cliente
para a importação de um novo lote de 20 locomotivas.
Segundo Gemma, toda
a recuperação e modernização das locomotivas, inclusive adaptação das bitolas
para o tamanho dos trilhos nacionais, será feita na sede da unidade, instalada
ao lado da Brasil Ferrovias. "Entregaremos a locomotiva para o cliente com
performance e potência de uma nova, que pode ter vida útil de mais 20 anos",
afirma.
Gemma explica que a grande demanda das concessionárias de
ferrovias por locomotivas e vagões ocorre quase cinco anos depois de iniciado o
processo de privatização de toda a malha nacional. Nos primeiros anos, as
empresas que assumiram as operações promoveram reestruturações em seus negócios
e sanearam as contas, além de concentrar esforços no conserto de trilhos,
equipamentos de sinalização e pátios. Com linhas recuperadas, o próximo passo é
investir em locomotivas e vagões para ganhar produtividade e atender à demanda
em franca expansão.
"Vivemos o melhor momento desde a década de 90",
confirma o diretor-executivo da MGE, Equipamentos e Serviços, Ronaldo Moriyama,
que tem sede em Diadema e há dois anos abriu uma unidade em Hortolândia, na área
da antiga Cobrasma, voltada para reforma, manutenção e modernização de
locomotivas elétricas. A empresa tem programado para 2006 um investimento de US$
2,5 milhões em processos e ampliação, dos quais US$ 2 milhões serão destinados
para a unidade industrial da região. Com isso, a MGE que, ao final deste ano
atinge 120 locomotivas recuperadas no prazo de dois anos, espera aumentar em 30%
sua capacidade de reforma e manutenção.
O investimento e o entusiasmo do
empresário devem-se, segundo ele, aos grandes investimentos que o setor deverá
receber nos próximos cinco anos, principalmente pela Brasil Ferrovias. "Neste
momento, a Brasil Ferrovias é a empresa com o maior potencial de investimentos",
diz. Ele afirma que o setor está aquecido há três anos e deve continuar assim no
ano que vem. Os números da MGE comprovam as palavras de Moriyama. Em apenas oito
meses a companhia recuperou e modernizou 25 locomotivas e deve entregar outras
17, também importadas, até o final deste ano para a Brasil
Ferrovias.
Brasil Ferrovias desperta interesse
América
Latina Logística (AAL) já manifestou a intenção de adquirir a
empresa
Os investimentos que a Brasil Ferrovias vem fazendo visam
ampliar a capacidade da malha ferroviária, dobrando o volume total transportado
em até três anos. O acordo anunciado em maio praticamente significa uma
reestatização da malha administrada pela holding. Os acionistas vão investir R$
375 milhões e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
entra com R$ 647 milhões, dos quais R$ 265 milhões são decorrentes de
empréstimo. Outros R$ 446 milhões são decorrentes da conversão de dívidas com o
próprio BNDES em capital.
Para os próximos quatro anos, os investimentos
deverão chegar a R$ 2,4 bilhões. Este dinheiro será aplicado na manutenção das
linhas férreas, na reforma de vagões e na aquisição de novas locomotivas. "A
Brasil Ferrovias é, neste momento, a empresa que tem o maior potencial de
investimentos no Brasil", afirma o diretor-executivo da MGE Equipamentos e
Serviços Ferroviários, Ronaldo Moriyama, que mantém contratos de serviços com a
holding.
A modelagem definida nas negociações entre o governo federal e
acionistas levou a uma nova divisão na Brasil Ferrovias, com a criação de uma
nova holding, batizada de Novoeste Brasil. Ferroban e Ferronorte continuam sob o
controle da Brasil Ferrovias e sua composição acionária não sofreu
alterações.
Além de ampliar a malha férrea, os planos da Brasil Ferrovias
incluem compras de 1.574 novos vagões e 268 locomotivas - reformadas e novas -
para o transporte de 21 milhões de toneladas até 2009, dobrando o atual
volume.
A aquisição da Brasil Ferrovias seria uma forma da ALL ampliar
sua participação no setor. A empresa concentra seus negócios na região Sul do
Brasil. Neste ano, a ALL reverteu seus prejuízos e ainda diversificou seus
negócios para a safra de grãos de Estados da região Centro-Oeste. A compra da
Brasil Ferrovias seria paga pelo próprio caixa da ALL, segundo informou o
presidente da empresa, Bernardo Hess. Somente em novas locomotivas a ALL deve
investir em 2006 R$ 260 milhões na compra de 50 máquinas.